Meu nome é Sally Tilelli e trabalhei como professora durante muitos anos (quase 20, para ser mais específica). Contudo, recentemente decidi parar de lecionar e me dedicar à minha empresa – a Sieben Gruppe – onde realizo trabalhos de tradução, revisão textual, entre outros. Quando decidi abrir meu próprio negócio, juntamente com minhas sócias (e também irmãs), lembro do quanto me senti feliz e aliviada por não mais precisar enfrentar o trânsito enlouquecedor de nossa cidade (SP), o barulho ensurdecedor e a violência sem limites que assola cada esquina, cada semáforo (farol, sinaleiro – como você preferir). Ah, que delícia trabalhar em casa, no meu próprio escritório, ouvindo música francesa, tomando limonada – just perfect! Porém, lendo uma reportagem da Revista Veja – publicada em Junho de 2008 – percebi que o que realmente me fez desistir de lecionar, não foram os problemas externos à sala de aula e sim os que ocorreram e ainda ocorrem dentro dela e de várias escolas. Antigamente, quando eu era aluna do primário, ginásio (ou seja, há muuuuuuuuuuuuito tempo), o relacionamento entre professores, estudantes e pais, era completamente diferente. Havia profundo respeito por parte dos pupilos e de seus progenitores, em relação aos mestres que, pelo menos em sua esmagadora maioria, eram dotados de profundo conhecimento teórico e prático. Conseguiam compartilhar seu saber com os mais jovens, preparando-os para tornarem-se profissionais bem sucedidos e, acima de tudo, verdadeiros seres humanos – no sentido mais amplo da palavra.x Tínhamos orgulho de mencionar os nomes de nossos professores, pois haviam sido eles os responsáveis por lapidar e enriquecer nosso conhecimento. Muitos haviam inclusive ensinado os pais de seus atuais alunos. Outro fator era o comprometimento de nossos pais com o ensino. Eles conheciam seus filhos e sabiam o quanto era importante apoiar o professor, mesmo quando isso significava dar um bom puxão de orelhas no rebento.
Por que estou escrevendo tudo isso? Hoje, apesar de amar minha profissão, já não sinto o menor interesse pela sala de aula. É terrível dizer isso, mas o fato é que me deparei com uma realidade aterradora: atualmente, nós professores, pelo menos segundo uma grande parte da sociedade – de forma consciente ou não – nos tornamos profissionais despreparados, e portanto, dispensáveis e facilmente substituíveis. Voltando à reportagem publicada pela revista Veja, o número de professores que chegam às salas de aula sem o menor preparo para lecionar é inaceitável. É difícil para o profissional que ama o ensino, dividir espaço e, até mesmo cedê-lo a novos professores que chegam às escolas, cada vez menos preparados. Observe abaixo alguns dados importantes: dos 260 mil professores que participaram de concursos públicos, nas 4 maiores redes de ensino do país, ou seja, MG, PE, RJ e SP, 73% foram reprovados nos testes básicos nas áreas em que pretendiam ensinar, dentre elas matérias importantíssimas, como: o português e a matemática. O problema não termina aí, pois boa parte dos que foram aprovados, 27%, passou nos teste com as notas mínimas necessárias. O exemplo mais assustador é de PE. Dos 4.352 candidatos que prestaram exames, apenas 34 conseguiram responder questões elementares de geometria e álgebra, ou seja, 0.8% dos participantes. Acredite se quiser, a grande maioria já leciona! O que está acontecendo com nossos professores? Precisamos analisar vários aspectos:
1- O péssimo nível do ensino superior voltado para a formação de professores em nosso país é, sem dúvida, um dos maiores responsáveis por esta situação. Somente 1% dos candidatos atingem nota máxima na avaliação final. Bem, se os professores não aprendem, como podem ensinar, não é?
2- Pesquisas mostram claramente que aqueles fazem opção por trabalhar dentro de salas de aula em nosso país, são, geralmente, os piores alunos de suas classes. Enquanto que nos paises desenvolvidos, os que escolhem lecionar encontram-se entre os 10% que obtiveram as melhores notas como alunos.
3- A maioria dos professores no Brasil vem de famílias nas quais os pais sequer terminaram o ensino fundamental e vivem uma vida repleta de dificuldades, devido aos baixos salários, fraca alimentação . Sem base em casa (com todo o respeito a todas as famílias brasileiras), torna-se difícil para a criança atingir níveis mais altos na escola.
4- Para a grande maioria de nossos professores, o sonho não está dentro de uma sala de aula. Os que ensinam matérias como física, química, ciências, muitas vezes gostariam de se dedicar ao trabalho de pesquisas em grandes laboratórios, pesquisas de campo, mas por falta de incentivos nessas áreas acabam aceitando o trabalho a frente de 40 alunos, geralmente desmotivados, o que, aliás, é outro problema sério que discutiremos mais tarde.
5- Muitas escolas deixaram de ser tratadas como templos sagrados do ensino e são hoje gerenciadas como empresas. Seus “diretores” instruem seus “professores”, a prepararem seus alunos única e exclusivamente para serem aprovados no vestibular. Não importa realmente se eles aprenderam para a vida, ou não. Existem várias instituições conceituadas que aplicam provas e simulados quase que diariamente. O intuito é conseguir fazer com que um número cada vez maior de “representantes” dessas escolas sejam aprovados na prova das provas – o vestibular. Que maravilha! Nossa escola teve um índice de aprovação de 97,3% - fantástico! Também, com o número de novas faculdades que surgem a cada esquina, e com o tipo de teste que elas aplicam quem não passa? Nos cursos livres, o problema é ainda mais grave, pois o professor é praticamente proibido de tomar qualquer atitude em relação à disciplina. Isso pode fazer com que os alunos (indisciplinados) e seus pais (muitos deles ausentes) sintam-se incomodados e desistam. Os números caem e o professor perde o emprego. Neste caso, a indisciplina torna-se a regra, e não a exceção.
6- A falta de motivação dos alunos é outro fator importante. Não pense que somente os alunos de escolas públicas sofrem desse mal. Infelizmente, mesmo entre aqueles matriculados em escolas conceituadas, a motivação não é muito maior. A diferença está nas razões que levam o aluno a sentir-se desmotivado. Os provenientes de famílias mais humildes – que geralmente estudam em escolas públicas e na periferia – enfrentam problemas sérios em casa, como a falta de elementos básicos para o aprendizado (livros, alimentação, paz), e até nos bairros em que moram (violência, drogas, falta de transporte, acesso à saúde, etc). Os que têm melhores condições sofrem por outras razões. Filhos de pais que trabalham 14 horas por dia e que, para manterem seus empregos, precisam estar em constante atualização (cursos de pós-graduação, mestrado, doutorado, línguas etc) relegam os “baixinhos” aos cuidados de terceiros. Não podemos esquecer também que um número crescente de crianças e adolescentes vivem em lares incompletos devido ao alto índice de divórcio. Uma criança distante dos pais, nas mãos de um profissional mal preparado, torna-se o que chamamos de “problema” na escola (e futuramente, na sociedade). Surgem as reclamações dos dois lados. Os pais, por sentirem-se culpados pela ausência, cobrem os filhos de carícias positivas (o tênis mais caro, celulares de última geração etc) e os professores, sem treinamento para tais desafios, acabam perdendo o respeito de seus alunos, às vezes por completo. Não podemos esquecer também, que muitas vezes para sentirem-se tranqüilos enquanto trabalham, os pais literalmente “enfiam” os filhos em 10 cursos livres diferentes por dia (línguas, balé, teatro, RPG, filosofia avançada, web-design, entre outros), para que estes não fiquem sozinhos em casa. Os professores desses 10 cursos diferentes são obrigados a lidar com 90% de alunos que prefeririam estar no Iraque a ficar dentro daquela sala de aula. É claro que todos esses cursos são importantes, mas forçar o aluno a fazer coisas que ele não gosta é demais. Coitado do professor e do aluno! Professores e educadores não são pajens! Eles estão lá para ensinar e não para suprirem a falta dos pais, tornando-se babás. Se os pais querem que seus filhos se tornem seres humanos de verdade, precisam ajudar a valorizar os professores, mas é claro que sempre cobrando deles e das instituições onde trabalham um nível de conhecimento adequado e postura profissional.
O ensino é uma coisa maravilhosa. É uma pena assistirmos em nosso país, diariamente, o assassinato das escolas, dos professores e, em última análise, de nossa língua. É divertido andar pelas ruas e ver placas engraçadas, escritas de maneira errada, o problema é que não são somente estas placas de rua que estão repletas de erros gramaticais e ortográficos. Representações escritas e assinadas por advogados, livros escritos por médicos, manuais escritos por profissionais de diferentes áreas, chegam às nossas mãos todos os dias recheados de erros crassos e inaceitáveis. É claro que não podemos esperar que os profissionais de outras áreas sejam brilhantes em português, mas aceitar que cometam um homicídio doloso cada vez que escrevem é inaceitávelx. Somos revisoras. Nosso trabalho é revisar e orientar escritores, e gostamos de fazê-lo. Mas é fundamental que medidas sejam tomadas no sentido de melhorar o nível de nossos professores e do ensino como um todo. Melhores salários, uma avaliação mais rígida, maior comprometimento dos pais em relação ao ensino de seus filhos, uma parceria mais forte entre pais e professores, maior coragem dos pais em dizer a seus filhos – Não, seu professor está certo. Você está errado! (se for o caso, é claro). Tudo isso poderá ajudar a melhorar o nível de nossos alunos, a formar professores e outros profissionais mais preparados. A nossa vida pode ser melhor, imagine a de nossos filhos?
Sally Tilelli
Sieben Blog
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