O Nosso Epitáfio
Conto escrito por Joilson Kariry Rodrigues
Meu caro secretário,
Quando chegarem a ti estes escritos eu já terei partido. Não tenho enganos quanto à minha saúde frágil e decerto não me resta mais do que hoje. Não serei longo, do pouco de forças que ainda me restam não gastarei com delongas. Escrevo-te porque, sendo tu a única pessoa a quem julgo querer-me bem, é a ti que encarrego meus funerais. Escrevinhe na lápide o texto que lhe convier pós esta leitura. Se me sobrar ânimo contarei outras passagens da minha vida, mas advirto-te que nenhuma outra lhe parecerá mais interessante do que esta que relatarei aqui. Não me condene pela falta de jeito com as palavras, nunca fui dado a essa tolice que é escrever. Sei da vida o que dela vivenciei, cá no percalço dos anos, que não me foram poucos, nada tirei de livros.
Bem sabes que estou quase para soltar o suspiro medonho, o derradeiro dessa jornada de oitenta e sete anos. Desses, sessenta e dois usufruindo um espólio maldito. Não te dou conta desses fatos, acontecidos em 1944, com a intenção de expurgar a minha alma; um desabafo não bastaria para alvejá-la. Tampouco faço caso dessas lembranças antigas, elas não me importam mais do que o amanhã que pela certa não verei, mas são fundamentais a ti, para que saibas a origem da fortuna que será teu legado.
Longes se vão os dias áureos da minha mocidade. Áureos para mim, austeros para um sócio ingênuo que contraí numa casa de mulher da vida da Rua Aurora. Foi uma paixão de amizade sem tamanho, logo assim de cara. Parece-lhe já ter visto a pintura de um anjo? Pois se viu era ele ali retratado, com a mesma fartura de azul nos olhos e os cabelos em cachos dourados. Apegamo-nos numa dependência que se completava. Ensinei-lhe o que ele não conseguia aprender nos livros, e ele, sabendo da minha aversão às letras, não tendo nada a me ensinar, consentia em bancar nossas noitadas. Quanto tributo pagou aquele pobre coitado para compartilhar da minha amizade? Arranquei-lhe a fórceps todo dinheirinho que o pai, rico fazendeiro de cacau em Ilhéus, enviava-lhe para custear os estudos.
Ricardinho... meu incauto colega de juventude! Tanta riqueza que nos valha, não os predicados da sua alma beata. Pois que esse moço vivia uma peleja íntima, um confronto espinhoso entre a educação católica que recebera da mãe e os instintos de safadeza que herdara de Adão. Fiz o papel da serpente do paraíso, obstinado e descrente que pureza levasse ao céu.
─ Do paraíso já fomos expulsos, Ricardo – dizia eu, e ele expirava um “ai, meu Deus!”, como se pedisse perdão pela minha heresia, embevecido da minha ousadia profana, comichando de vontade de me imitar.
─ Pois é. E nem fomos nós que comemos o fruto proibido... arrematava ele, suspendendo o conflito íntimo, deixando o seu lado ruim ganhar mais uma batalha.
Assim íamos à noite à busca dos frutos da casa da Zilda. Ricardinho deslembrado da religião, eu, engenhando na mente novos argumentos contra a devoção do meu amigo. E no dia seguinte, após uma noite de esbórnia, enquanto eu dormia saciado de fornicação, ele desfiava em rezas um rosário de arrependimentos. Cumpria uma penitência terrível aterrando-se nos livros, jejuando dos frutos da Rua Aurora por duas, três, às vezes quatro noites seguidas. Lá eu também não ia; não sem os olhos azuis e a verba paterna do meu amigo. Eu compartilhava a contragosto da tirania desse santo regime.
Dos livros Ricardinho arrancara erudição e um hábito chato de citar frases famosas. Eu desconhecia as frases e os autores, e ele, abusando da minha ignorância, atribuía a si a autoria desses ditos:
─ A César o que é de César – dizia ele com ares de monge.
─ Quem disse isso, Ricardinho?
─ Eu disse – assumia ele. Mas, mais do que admiração, essa sapiência me causava aversão.
Embora eu fingisse admirar, exagerando na efusão – e a minha bajulação lustrava o ego catedrático do estudante – ele ria largo, exibindo os dentes perfeitos, fazendo covinhas nas bochechas róseas, quase femininas.
─ Você é sábio, amigo Carranca ─ às vezes ele dizia, retribuindo-me os elogios mentirosos. Noutras não dizia nada, recolhia a bajulação, inflava o peito e só faltava pedir-me que arranjasse um rabo para abanar na sua presença.
O receio de ver-me privado daquela verba dobrava meu apego ao moço. Inventava modos de prendê-lo a mim, suando frio com a possibilidade dele fazer novas amizades. Ele carecia de mimo, eu o mimava sem pudores. Renunciei aos meus brios em nome daquela vida. E assim a nossa amizade andava.
Num ponto ainda discordávamos: a sua religiosidade. Receava-me perdê-lo para a sua consciência arrependida. Então, sendo assim, declarei guerra aos santos de sua devoção. Ria zombeteiro de suas carolices, de sua autopunição. Deturpava a biografia dos santos, apontava uma falha no padre, jurava tê-lo visto numa casa de perdição. E, como é mais fácil puxar para baixo do que empurrar para cima, lograva no meu intento. E ele, após deleitar-se nos gozos da noite, já não achava maculada a sua consciência de frade.
Éramos quase irmãos: eu mais a Caim, ele mais a Abel, mas éramos. Ricardinho ausentava-se cada vez mais das suas orientações apostólicas. Eu, por outro lado, ausentei-me da função que me arrimava: carregador de bagagens na estação da Luz. Decidi que viveria sob o esteio do meu amigo, dividindo a mesada e as mulheres que se apaixonavam pelo azul de seus olhos. Ele citou meia dúzia de frases sem efeito, recusou-se veementemente aos meus propósitos, bateu o pé e até ameaçou romper a amizade. Em vão. Minha decisão, ao contrário da minha amizade, era sincera. Insisti. Ele, depois de um breve período ranzinza, acudiu-me resignado.
─ Tudo bem, mas que seja na condição de exilado. Por alguns dias apenas...
Mudei para o seu apartamento da Avenida São João. Ricardinho estreitou-se comigo, alargou sua dependência dos meus falsos elogios e, aos poucos, foi alongando a minha estadia. Dividíamos o mesmo quarto, a loção pós-barba, as mesmas roupas, a mesada e as mulheres da noite.
Assim, a Deus o tempo foi minguando; uma missa a cada quinze dias, depois uma por mês, por fim: só uma oraçãozinha no remorso das noitadas, nada com muita devoção. Ricardinho admirava fielmente a minha irreligiosidade, gostava de me ouvir proferir heresias, falava pela minha boca coisas que o temor aos castigos divinos não o consentia que falasse pela sua.
─ Como é que é, Carranca, aquela santa tem cara de quê?
E eu, no afã de agradá-lo, desfiava um mundo de impropérios à divindade. Ele corava, abria um sorriso grande, fazia covinhas nas bochechas infantis, alisava o começo de bigode. Ficava contente disso, citava uma ou duas frases prontas. Vivíamos, por aqueles dias, uma lua-de-mel de dar inveja; até fazíamos planos para o futuro, como um casal de noivos. Ele prometendo-me uma viagem à Europa assim que concluísse os estudos.
─ Dizem que em Lisboa há dez mulheres para cada homem. São vinte mulheres que estão lá nos esperando – falava eu, meio inseguro de bater com os conhecimentos dele, mas disposto a sustentar essa invenção se fosse contradito.
─ Há mais, Carranca, há mais...
E num arroubo de gentileza ele presenteava-me com uma gravata, ou com um frasco de brilhantina. Alisava o buço, sorria o seu sorriso mais alegre, e juntos saíamos para mais uma noite de orgia. Éramos como irmãos, Remo e Rômulo mamando na mesma teta.
Toda noite havia uma causa a comemorar. E o suor do cacau se derramava nos leitos macios das mulheres da vida, nas noites vaporosas das casas de perdição, nos regados de vinho e na fumaça dos charutos caros. Todo prazer que o cacau podia comprar, comprávamos, sem medidas, sem zelo, sem arrependimentos.
Mas o diabo vestiu saias, ou despiu, para desencaminhar de vez o nosso moço. E a perdição atendia pelo nome de Charlote. Eu a vi primeiro, e primeiro eu caí de paixão. Ela logo fez pouco caso dos meus oferecimentos, eram poucos. Ricardinho tinha mais a dar. Nunca lhe confessei a minha loucura por ela, não convinha. Porém, tentava dissuadi-lo da sua. Em vão; se nem aos santos ele recorria mais, não tinha mais remorsos. Amarguei um ciúme cretino, cheio de ódio e veneno. Charlote, além de refugar o meu amor, também concorria comigo nos regalos que o dinheiro do incauto proporcionava. Travamos, eu e ela, uma disputa belicosa, e a minha desvantagem era imensa.
Charlote me detestava, fazia público o seu asco; batizara-me com os nomes mais feios e humilhantes que conhecia; ora chamava-me “Chupim”, ora eu era o “Corta Jaca”, alusões à minha condição de dependente e adulador. E a paixão era como um inseto zunindo dentro de mim, aferroando meu coração.
─ Por que não vai embora, seu inconho? Por quê? Diga!
Não sabia o que era inconho, ainda que soubesse não tinha coragem de revidar. O gosto da paixão era travoso, seco, emperrava na garganta a força da fala. Trazia engolido o meu desforro, que descarregava depois, a sós, rogando as pragas mais cruéis, resmungando entre os dentes obscenidades e declarações de amor. Ricardinho trocou o sorriso, botara mais aspereza; nem reparei se ainda fazia covinhas, acho que não. O buço se encorpara e já era quase um bigode. E ria seu sorriso novo, grave, indigesto. Eu atacava com injúrias a Charlote. Contava-lhe coisas que soubera dela. Ele parecia mais apaixonado do que eu, desprezava minhas maledicências, acusava-me de mexeriqueiro, até xingava.
O ciúme era um monstro dentro de mim. Um não, dois. Pois que Charlote, aos poucos, ocupava o meu lugar nos planos de Ricardinho. Agora seria ela a ir ver a Europa. Sentia-me espoliado, controlava-me a pulso, maldizendo a minha sorte. Arriscava mais um comentário maldoso à moral da moça, era rechaçado com os mesmos agravos. Doía-me imaginar o que ele fazia com ela na intimidade, os beijos estalados, as carícias dadas entre gemidos. Farejava o ar, cheirava as camisas sujas dele, buscando a presença dela num restinho de odor.
Recorri aos céus; tentei desfazer minha obra na cabeça de Ricardinho, trazê-lo de volta à religião. Lembrava-lhe o seu tempo de beatice, adverti-o para o seu descaso com Deus, sua inadimplência com a fé. Ele defendia-se com ironias, citando frases evangélicas que distorcia a seu favor.
─ Que atire a primeira pedra aquele que não tiver pecados...
E eu atirava; não nele, mas em Charlote. Recriminava sua conduta espetaculosa, a indecência de sua moda, suas modernidades; ela era uma avoada. Eu era um pregador no deserto, orando sem valia. O meu ateísmo decalcara-se na alma dele, tão forte, tão impregnado, que os temores divinos não arrancavam mais. Ricardinho não guardava lembranças da religiosidade de antes, ria da minha pregação como eu já rira dele, curtindo a desforra. Não servi como instrumento de Deus, busquei apoio na oposição; fiz feitiçaria, magia negra, macumba, sacrifícios. Pois eu digo, meu caro, que nem a Deus e nem ao diabo valeram a reza e as oferendas. O namoro dos dois ia fortalecido, calçado na felicidade dos amores novos em detrimento da minha inveja e do meu ciúme.
Foi pelos dias de carnaval que recebi o golpe maior. Uma semana antes Ricardinho lembrara-me a condição de exilado, exigindo urgência na minha situação. Eu, definitivamente, não mais contava nos planos dele. Decerto transferira a Charlote as promessas de viagens, os presentinhos, as descontrações. Fui, no Domingo à noite, com mais dois colegas de desgraça, mendigar favores sexuais na casa da Zilda. Sobrou-me uma mulher com males venéreos e uma recém-parida, que recusei com respeito. Embriaguei-me dos sobejos dos amigos e retornei antes do amanhecer. O casal fazia festinha no quarto. Charlote respondia às cócegas com gritinhos agudos; depois era a vez dele, que ria seu sorriso novo. Odiei amar aquela mulher, que me desprezava, que ocupava meu espaço nos sonhos de Ricardo. Odiei a ele também, com um ódio de Caim. Aproximei-me da porta, pé ante pé, ruminando meu ciúme acre, espumando de embriaguez e demência. Minha loucura coibiu-me da prudência, e, com a sutileza de um bêbado, esbarrei na porta. Tentei recuar. Ricardinho apanhou-me em flagrante, mas o surpreendido era ele, que não me esperava tão logo. Rosnou como um possesso, exigindo sossego e privacidade, atirando-me na fuça os nomes mais feios. Eu concordava passivo, manso, desculpando-me da minha indiscrição. Esperava que ele dissesse “bem-aventurados os mansos... ‘, mas ele era só insultos, desejoso de que eu tivesse um rabo para enfiar entre as pernas. Aos brados de palavrões mandou-me sair, que voltasse para o buraco de onde viera, fosse importunar o diabo. Aceitei a punição. Porém, Charlote fora ainda mais cruel; ausentar-me por algumas horas não pagava o meu erro, exigiu minha expulsão definitiva, como Salomé pedindo a cabeça do Batista; não sei se ele gostou da idéia, mas atendeu de vez o desejo dela, e sacudiu pela janela as minhas poucas tralhas”.
Nos dois dias que se seguiram eu perambulei sem propósito. Atordoado. Não tinha fome, não tinha sede. Quando me dava claridade nas idéias eu fazia balanços da minha vida, dos meus vinte e poucos anos. Jurava recompor-me, conseguir trabalho. Mas logo as lembranças retornavam à minha mente, e escureciam-me nas trevas do ódio. E o meu ódio não aceitava a minha covardia.
Na quarta-feira de cinzas, bem cedo, voltei ao prédio. Subi e fui direto ao apartamento, ainda tinha comigo as chaves. Entrei sem fazer barulho. Fui ao quarto. Os dois dormiam nus, saciados de amor. Fui à gaveta e apanhei a arma dele. Não sei quanto tempo fiquei ali, olhando os dois, acho que por longos minutos. Ricardinho foi o primeiro a receber o disparo no peito, seu sangue respingou e misturou-se ao de Charlote quando a alvejei também. Como um pacto derradeiro e involuntário. Ele ainda abriu os olhos azuis e olhou-me com piedade. Pensei ouvir dizer “até tu, Brutus?”. Não, acho que não. Acho que foi delírio meu.
Durante um dia e meio eu permaneci ali, não no quarto, no resto da casa. Atormentado. Às vezes tinha repentes de lucidez, segundos apenas, quando cogitava entregar-me à polícia. Mas logo era envolvido por delírios vagos. Parecia-me ouvir Charlote chamando-me de inconho, de chupim e de outras coisas humilhantes. Outra voz mais potente gritava: “Caim, que fizeste a teu irmão?”. Ao meio dia da quinta feira as alucinações se foram, levando minha consciência.
Não vem ao caso contar-te como dei fim aos corpos, o que importa é dizer que assumi a vida do meu infeliz amigo. Aprendi a imitar sua assinatura e por seis meses recebi sua mesada. Com os pais dele eu mantinha contato por telegrama ou cartas datilografadas, sempre exigindo mais dinheiro. Nunca mais voltei à casa da Zilda, nem à Rua Aurora. Mudei para o outro lado da cidade, e me mantive em discrição. Ao fim dos seis meses resolvi dar-me sumiço de vez. Obtive sucesso no investimento das mesadas, longe dali. Nunca guardei remorsos daquele dia, fui feliz até.
Sinto que a morte agora tem pressa, não fosse por isso, te contaria outras coisas, menos importante, mas também interessantes. Só quero que saibas, amigo, que eu estou ciente que fostes me envenenando aos poucos, ministrando remédios que aceleravam o meu fim, desde o dia que te fiz meu herdeiro universal. Não te atormentes. Escreva na minha lápide o mesmo texto que um dia escreverão na sua.
domingo, 14 de setembro de 2008
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Um comentário:
Grata surpresa encontrar aqui a obra desse escritor, que muito me lembra os grandes da nossa literatura. Poucos têm esse domínio da escrita. Parabéns ao grupo pela iniciativa de divulgar a nossa nova literatura.
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